Dedicação aos estudos e coragem para estimular a realização de transplantes

Silvia Fernandes abraçou oportunidades na Farmácia e é uma das profissionais homenageadas pelo Movimento Doe de Coração A farmacêutica é professora da Unifor e hoje comemora suas experiências como legado de resistência e conquistas
Ares Soares
Aos 16 anos, Silvia Fernandes Ribeiro da Silva deu seu primeiro passo rumo a um futuro profissional ainda desconhecido. Sem saber que o laboratório de análises clínicas era um dos campos de atuação de um farmacêutico, ela só entendia que um dia queria trabalhar em um lugar como aquele.
“Tive uma infecção e minha mãe me levou ao laboratório do Hospital Militar de Fortaleza (Hospital Geral de Fortaleza, do Exército Brasileiro) para realizar alguns exames. Nesse dia, lembro que fiquei deslumbrada quando conheci o laboratório de análises clínicas do hospital. No ano seguinte, quando estava me preparando para fazer o vestibular, soube que o curso que me levaria um dia a trabalhar em um laboratório semelhante ao do Hospital Militar era o de Farmácia”, conta a professora do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor).
Tendo recém-comemorado seu aniversário no dia 8 de setembro, a recifense é uma das professoras homenageadas pelo Movimento Doe de Coração 2021, iniciativa da Unifor, instituição da Fundação Edson Queiroz. Em sua 19ª edição, a campanha homenageia os profissionais de saúde que atuaram na área de transplantes de órgãos e tecidos em 2020.
“Sinto-me muito honrada pela indicação do meu nome ao lado de nomes que foram e são importantes para a realização e o sucesso dos transplantes de órgãos do nosso estado”, agradece a farmacêutica e doutora em Ciências da Saúde.
Professora da Unifor há 22 anos, Silvia Fernandes é tutora do segundo semestre do curso de Medicina. As monitorias na Universidade Federal do Ceará (UFC), onde se formou em Farmácia, foram algumas das experiências que a inspiraram a lecionar um dia. “Devido à importância da monitoria na minha formação é que, desde quando ingressei na Unifor, participo do Programa de Monitoria”, revela.
Legado
Como professora do curso de Farmácia, Silvia Fernandes teve a oportunidade de divulgar a área de transplantes para seus alunos, apontando-a como um campo de trabalho que necessita de profissionais qualificados. Como diretora do laboratório de HLA, abriu oportunidades de estágio para alunos da Farmácia e aqueles que realizam TCC na área de transplante sob a sua orientação.
“Hoje, sou consciente do legado que deixei no laboratório de HLA por ter sido professora do curso de Farmácia da Unifor. Pois os cinco farmacêuticos (Ilana Farias, Larissa Freitas, Gabriela Cidão, Mauriclécio Ponte e Alan Davi) que estão hoje à frente do laboratório de HLA do CPDHR (Centro de Pesquisas Em Doenças Hepato Renais) foram meus alunos de Imunologia na Unifor e estagiaram comigo no laboratório”, destaca.
O sistema antígeno leucocitário humano (sigla em inglês: HLA – Human Leukocyte Antige) é uma das áreas de expertise da professora Silvia. “Fui a primeira farmacêutica a abrir a porta do laboratório de HLA em 1986, ao lado do Dr. Henry Campos, e ter participado da sua criação”, rememora. Com destaque para o treinamento que fez em histocompatibilidade (compatibilidade ou equivalência entre células, tecidos e órgãos), no mesmo laboratório do Nobel de Medicina em 1980, o francês Jean Dausset, “que possibilitou o início dos transplantes de órgãos no mundo a partir da identificação da compatibilidade HLA da dupla receptor e doador”.
Além disso, a farmacêutica participou da equipe que realizou os exames de histocompatibilidade do primeiro transplante renal no Ceará, em 1988. Área a qual ela considera ter entrado por “destino e não por opção”. Ela fez especialização em Hematologia e até então, acreditava que seria hematologista.
“Nessa época, o Dr. Henry Campos estava retornando de Paris e queria impulsionar o transplante renal no Hospital das Clínicas, mas para isso precisava de um laboratório de HLA. Diante disso, o Dr Luis Carlos Fontenele, diretor do Hemoce, me chamou à direção e me apresentou ao Dr Henry, comunicando que a partir daquele momento eu iria trabalhar com ele. Claro que tentei evitar, mas minha carteira de trabalho tinha acabado de ser assinada e não tive escolha. Entrei pelo destino e não por opção. Mas, até hoje, agradeço o empurrãozinho do destino que me direcionou para a área de transplante, que me proporcionou grandes conquistas e realizações”, afirma.
‘Sou doadora de órgãos’
Além de atuar diariamente na área de transplantes, Silvia Fernandes é uma profissional engajada na mobilização da sociedade para doação de órgãos e tecidos. Por isso, também se autodeclara como doadora. Ela lembra que, no início, houve resistência da família. Hoje, seus familiares são a favor e respeitam sua vontade de ser doadora.
“Sou doadora de órgãos. Minha família e amigos sabem disso, e participo desde sempre das campanhas de doação de órgãos promovidas pela Central de Transplantes do Ceará, juntamente com alunos da Unifor, com faixas de estímulo à doação e vestindo a camisa da campanha Doe de Coração. As campanhas em prol da doação de órgãos, assim como as palestras sobre o assunto nas escolas e universidades abrem as portas para se discutir o tema da doação de órgãos e a importância desse ato de amor e solidariedade que pode salvar vidas”, diz.
27 de setembro
No Dia Nacional da Doação de Órgãos, 27 de setembro, o Movimento Doe de Coração realizará a solenidade de homenagem aos profissionais de saúde que se destacaram no combate à Covid-19. O evento será transmitido, às 18 horas, nas redes sociais da Unifor e TV Unifor (181 NET).
A homenagem é um reconhecimento da Fundação Edson Queiroz e da Universidade de Fortaleza ao trabalho e à dedicação dos profissionais de saúde pela realização de transplantes, mesmo em tempos de pandemia de Covid-19. Uma comissão de professores do Centro de Ciências da Saúde da Unifor foi responsável pela escolha dos homenageados. Destaques nas áreas de Medicina, Enfermagem, Nutrição, Educação Física e Farmácia.
Sobre Silvia Fernandes
Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mestre em Imunologia de Transplantes de Órgãos e Tecidos pela Faculdade de Medicina da Université de Franche-Comté, em Paris, França. É especialista em Biologia Molecular Aplicada ao Diagnóstico Clínico e em Aperfeiçoamento em Análises Clínicas, ambas pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Graduada em Farmácia (1984) pela UFC, é professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor) desde 1999.

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