Mães e filhos passeiam pela arte e criam memórias no Espaço Cultural Unifor

Para quem gera vida e se dedica a educar os filhos, a preocupação de mostrar que o mundo é diverso e requer indivíduos mais sensíveis é uma constante Antônio e Deubia fazem das artes um caminho frequente para os diálogos e as conexões em família. O filho da advogada e coordenadora de cursos da Pós-Unifor pensa em estudar Engenharia
Ares Soares
Além de longo, o caminho da maternidade é cheio de possibilidades, afetos e desafios. A arte tem sido uma trilha fundamental para algumas famílias no exercício diário de educar. É assim com Deubia Cavalcanti e o filho Antônio Cavalcanti Mourão (12 anos) e com Rhaina Ellery Huland e as filhas Catarina (8) e Isabel Ellery Huland (5). Nesta semana do Dia das Mães, elas compartilham como trazem as artes visuais para o centro do aprendizado, tornando o tema mais acessível para as crianças e também como atalho para despertar ainda mais a sensibilidade e a curiosidade.
Nesta reportagem, as entrevistas com mães e filhos tiveram como ambiente as exposições “100 anos da Semana de Arte Moderna em Acervos do Ceará” e “O Céu Como Limite”, ambas em cartaz no Espaço Cultural Unifor.
Arte presente
As artes tecem um cordão que fortalece ainda mais a conexão entre Deubia e Antônio. O tema entrelaça as memórias que estão no cotidiano, especialmente em viagens e passeios que mãe e filho fizeram ao longo dos 12 anos nos quais compartilham o mundo juntos. Deubia, que é graduada em Direito na Unifor e é coordenadora de cursos da Pós-Graduação na Universidade, sempre levou Antônio a programas culturais, especialmente no campus onde estudou e no qual trabalha desde 2018.
Passeios em museus são momentos de lazer frequentes para eles, a ponto de se tornar o presente antecipado do integrante mais novo da família. Graças ao pedido, a programação das férias já está traçada. “No meu próximo aniversário (em agosto), pedi uma viagem a São Paulo para irmos visitar novamente o Masp (Museu de Artes de São Paulo) em julho”, conta o aluno da 7ª série que também aprecia matemática e futebol.
Desinibido, Antônio comenta os temas que mais aprecia. “Os renascentistas usavam muito a matemática. Tudo é matemática! Tudo se baseia em números”, diz o estudante que pensa em cursar Engenharia, enquanto a mãe escuta o diálogo cheia de orgulho. Antônio explica, por exemplo, que quem planejou a fonte perto do Espaço Cultural Unifor certamente calculou altura, largura e volume do objeto. Os números estão também na receita do bolo de chocolate que acabara de comer, pois os ingredientes também precisaram ser medidos para chegar ao sabor e consistência certos.
Ao unir ciências e arte, Leonardo da Vinci (1452-1519), um dos principais artistas do período renascentista, fez o desenho “O Homem Vitruviano”. A obra do século XV faz parte de estudos sobre as proporções do corpo humano, integra o acervo da Galeria da Academia, em Veneza (Itália), e raramente é exposto.
Mais do que conteúdo
Ampliar a bagagem cultural do estudante faz parte da preocupação diária dos Cavalcanti Mourão. “A gente sabe que pai e mãe são responsáveis por essa formação que não pode ser apenas conteudista. Lembro como fiquei feliz porque o Antônio reconheceu as obras da Djanira (Djanira da Motta e Silva, 1914-1979, pintora, desenhista, ilustradora e cenógrafa brasileira) aqui no Espaço Cultural Unifor”, explica ela. A identificação foi possível porque o filho já havia visto obras da artista no Masp, quando foi a São Paulo com os pais, em março de 2019, ao visitar a mostra “Memória de seu povo”.
A educação na qual Deubia diz acreditar vai na contramão do que considera “bitolado”, pois a advogada avalia que o bom aluno e o bom profissional se diferenciam exatamente por um repertório amplo. “A gente sempre tentou ocupar os espaços. Sempre achei e acho que não tem colégio completo. Da forma que a gente tem a educação hoje, as escolas são conteudistas, então cabe à gente, pai e mãe (ambos professores), trazer esse algo a mais.Nos sentimos responsáveis por isso: pela arte, pelo esporte, por essa complementação”, conta Deubia.
Nesse caminho em que recebe estímulos diariamente, o estudante diz que foi adquirindo um gosto “diversificado” porque, da mesma forma que aprecia uma exposição com os pais, também se diverte jogando bola ou videogame com os amigos. Ao final do passeio, o pai de Antônio, o advogado e professor Alex Mourão, foi buscá-lo para uma partida do torneio interclasses.
A essência da arte
Antônio reconhece, entretanto, que nem todas as crianças têm as mesmas chances de aprendizado com as quais ele conta. Por isso, defende que o acesso à cultura no Brasil deveria ser mais democrático. Para o menino, passeios como os que faz na Unifor com a mãe representam bem mais do que lazer. “Arte é essencial. Quando as pessoas não têm oportunidade de conhecer arte, elas vão saber menos de cultura, de História, de seu povo”, justifica. “Você acha que está tudo concatenado…”, complementa a mãe. “Concatenado quer dizer conectado, né?”, diz Antônio, sem receio de perguntar para ampliar o próprio vocabulário.
Aos 12 anos, Antônio gosta de música e aprecia estilos como phonk (subgênero musical de hip hop e trap)
Ares Soares
Durante a visita à exposição “100 anos da Semana de Arte Moderna em Acervos do Ceará”, Antônio também identificou as obras de Di Cavalcanti e parou por mais tempo para apreciar os trabalhos do artista, como “Batuque”, “Mulheres na Praia” e “Mulher tocando Atabaque”. O gramofone também chamou a atenção do garoto, que costuma ouvir phonk, subgênero musical de hip hop e trap que descobriu no aplicativo TikTok.
“Gosto muito de ver pinturas, esculturas, principalmente quando entendo o significado”, conta Antônio. Ao lado da mãe, ele demonstrou interesse por tocar e perceber as texturas da adaptação de “Figuras” (também de Di Cavalcanti), obra símbolo da exposição que ganhou peça tátil para garantir acessibilidade a pessoas com deficiência. Ao contemplar os demais trabalhos expostos, Antônio mantinha a mesma postura orientada pelos pais desde que começou a frequentar museus: braços cruzados para trás. “Acho legal porque desde pequeno eu sou levado para esses lugares (onde pode apreciar arte). Eu me sinto muito bem neles”, relembra.
As texturas da obra símbolo da mostra, “Figuras” (de Di Cavalcanti), chamaram a atenção do estudante acostumado a frequentar museus com os pais
Ares Soares
Para Deubia, na fase adulta, dificilmente o filho irá recordar qual era o carro que a família tinha enquanto ele era criança. “É muito mais provável que se lembre de uma exposição que foi conosco quando tinha três anos de idade, porque naquele momento aquilo o marcou. A gente tem muito isso em mente”, explica.
Nas esquinas do aprendizado diário, os desejos de mãe e filho se abraçam e seguem próximos. Enquanto Deubia pretende abrir mais possibilidades para que Antônio “seja sempre atento e crítico, entendendo que o mundo é enorme, diverso e lindo”, o filho agradece por vir sendo apresentado às artes desde cedo. “Mãe, eu te amo. Você é a melhor mãe do mundo e eu não mudaria nada em você!”, diz o menino.
A infância da arte
Mãe coruja, Rhaina Ellery Huland leva as filhas Catarina e Isabel a exposições de arte desde bebês, para estimular que ampliem seus horizontes
Ares Soares
“Silêncio”. “Não pode tocar”. “Vamos respeitar a linha de distanciamento demarcada no chão?”. A cada viagem em família, seja ela para Paris ou Manaus, o programa se repete, assim como as orientações de uma mãe que, por ser amante e estudiosa das artes, está sempre atenta às regras de conduta em cada museu visitado com as duas filhas: Catarina, de 8 anos, e Isabel, hoje com 5. Ela é Rhaina Ellery Huland, advogada, Procuradora da Fazenda, especialista em Escrita e Criação pela Universidade de Fortaleza e visitante incansável de exposições de artes que podem ser clássicas ou de vanguarda, assinadas por gênios da pintura ou novos artistas recém-descobertos.
O importante, ela reitera, é se deixar atravessar pelo poder utópico das artes, aquele que instiga a imaginação, causa certa estranheza e pode dar a ver outras possibilidades de vida. E se todos os caminhos, invariavelmente, levam às artes, nada de tentar contabilizar quantas exposições mãe e filhas já viram juntas. Basta vê-las identificando, só de olhar, obras referenciais do Modernismo brasileiro na mostra “100 Anos da Semana de Arte Moderna em acervos do Ceará”, em cartaz na Unifor. “Olha mãe, a Tarsila”, alardeia Catarina, fã confessa de Tarsila do Amaral, a musa do período que foi “ponto de virada” na arte brasileira.
Isabel Ellery Huland diverte-se com versão tátil da obra “Figuras”, de Di Cavalcanti
Ares Soares
Como a mãe, Catarina e a irmã também iniciaram cedo o mergulho na história da arte. Para elas, nomes como Chico da Silva, Barrica e Raimundo Cela são familiares, seja porque foram temas de debate na escola ou mesmo por ver obras e livros de arte em casa. Na exposição, no entanto, o passeio é de mãos dadas com a imaginação. E assim é que a versão tátil da obra símbolo de Di Cavalcanti chama atenção. Intuitivamente e sem precisar ler qualquer aviso ou instrução de uso, elas põem as mãos sobre “Figuras”, de 1930. Isabel diz o que vê: “o moço está tocando violão e a moça está deitada pensando na vida”. E emenda: “é gostoso de pegar esse quadro, viu mãe? Esse pode!”.
A mãe ri, orgulhosa do exercício da ordem do sensível que fez a filha saber diferenciar o que é ou não passível de toque numa mostra expositiva. “Uma vez levei uma bronca da Bia Perlingeiro, dona da galeria Multiarte e referência ímpar, porque estávamos numa exposição e chamei a atenção das meninas quando elas começaram a dar estrelinhas no meio do salão, dançando com as obras. Ela me disse: ‘deixe que se sintam livres dentro desse espaço, não coloque tantos limites porque é importante para elas nessa idade poder minimamente interagir’. Foi a partir daí que passei a não impor tantas regras, observando o que a arte desperta nelas. Algo nada fácil pra mim também porque ainda vejo o museu como templo sagrado, meio que intocável. Mas, enfim, absorvi a lição”, recorda Rhayna.
E segue o aprendizado mútuo. Diante da escultura em 3D de Ernesto de Fiori, “Mulher de Pé”, de 1937, ao invés de correr para brecar as mãozinhas de Catarina, a mãe prefere explicar sobre acessibilidade e mostrar como funciona a audiodescrição ali disponível. Ela para e ouve, mas a irmã caçula já parte em disparada para a sala ao lado. E não contém os pulos diante da estranheza disforme da escultura em bronze “Glèbe-ailès”, da artista Maria Martins. “Ela tem mãos de dragão, mas parece um anjo”, descreve Isabel, perguntando em voz alta se aquilo existe ou não existe. O mesmo estranhamento se repete frente à pintura “Galos”, de Candido Portinari. – “Um galo de duas cabeças? Existe, mãe?”. – “Filha, se existe ou não só a imaginação pode responder. Para a imaginação, tudo é possível, entende?”.
De obra em obra, sentimentos em profusão. Catarina correu para os braços da mãe ao se deparar com “Busto de Mulher”, de Eliseu Visconti, obra de 1895. Admitiu ter ficado amedrontada com o olho sem pupila e o cabelo desgrenhado da retratada. E saiu de perto. Minutos depois, já na sala vizinha, entretida com a irmã junto a réplica perfeita do Theatro José de Alencar, inaugurado em 1910, em Fortaleza, pediu à mãe para voltar à obra incômoda. Perguntada a razão, disparou: “a gente precisa enfrentar o medo”. Voltou. E encarou sozinha, em silêncio, por alguns instantes, algo sem-nome, mas desafiador.
A essa altura, Isabel já dava voltas em torno de um gramofone 78 RPM, para ela outra peça igualmente estranha e atraente. A mãe explicou que no século XIX e idos de 1900 a música só chegava às casas por ali – e manualmente. “Miga, choquei!”, respondeu a caçula, sem largar o celular já apinhado de fotos, músicas, caras e bocas.
Voando alto com a imaginação
Isabel e Catarina Ellery Huland investigam inocentemente o misto de sentimentos – sobretudo, a curiosidade – causados pelas obras do Espaço Cultural Unifor
Ares Soares
Passos adiante, o moderno abriria alas para o contemporâneo. Na exposição “O Céu como limite – bordados e pinturas”, do cearense Mario Sanders, um cenário de realismo fantástico imprimiu ainda mais adrenalina ao passeio. Olhos vidrados em vestidos que pareciam voar e nas cadeiras coladas no teto, de ponta-cabeça. Evocando “Alice no País das Maravilhas”, a mãe quis saber: “qual a matéria-prima principal usada pelo artista nessa exposição? É tinta?”. As meninas não titubearam: “é linha! Ele costurou tudooo”, gritaram em uníssono, trepidantes.
Mãe extasiada, filhas idem. O lúdico e o colorido entrelaçando cada obra. Deu para olhar com outros olhos o período de lockdown imposto pela pandemia da Covid-19 diante daqueles pares de chinelos e sapatos que foram parar nas paredes do museu. A obra “Match Point”, onde a raquete furada ao meio intrigava as crianças, também fez alvoroço dentro delas. Quiseram, é claro, saber a razão do “defeito”, se a bola não escaparia pelo furo quando fossem jogar frescobol. A mãe não explicou. Só sugeriu, assim como fazem os psicanalistas: “arte é isso: cadeiras ao alto, autorretratos sem tinta e faltando um pedaço, objetos alados”.
Para Rhaina, nada ali requer explicação ou ponto final. “Faço questão de levar as meninas às exposições de arte desde bebês. Mas não se trata de educação do olhar. Nada disso. É justamente um estímulo para que ampliem seus horizontes, entendam que a imaginação pode muito e que a realidade não basta. Arte então seria uma forma de deslocamento, um modo de intervir no mundo para tentar torná-lo sempre melhor”, finaliza.

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