O pequeno país que ficará ainda mais rico graças à guerra na Ucrânia

A dependência energética entre a Europa e a Rússia não era um grande problema até fevereiro, quando o Kremlin decidiu invadir a Ucrânia. O primeiro-ministro do Catar, Khalid bin Khalifa bin Abdul Aziz Al Thani, assumiu em janeiro de 2020
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Com menos de 3 milhões de habitantes, o Catar se tornou um país crucial para a Europa, que está em uma busca frenética para substituir as importações de energia russa.
Juntamente com a Austrália, este pequeno país do Oriente Médio é o maior exportador de gás natural liquefeito (GNL) do mundo e um potencial aliado comercial dos países da União Europeia, que até agora importam cerca de 40% do GNL do mercado russo.
Essa dependência energética entre a Europa e a Rússia não era um grande problema até fevereiro, quando o Kremlin decidiu invadir a Ucrânia, tornando a relação comercial cada vez mais insustentável.
A Europa já começou a assinar acordos de longo prazo para aumentar as importações de gás de outros países, mas isso não tem sido suficiente para compensar a perda das importações de gás russo.
Na Alemanha, por exemplo, 55% do gás consumido vem da Rússia. O ministro da Economia do país, Robert Habeck, recentemente disse que são necessárias medidas sem precedentes para reduzir a dependência e neutralizar o que ele vê como “chantagem energética do Kremlin”.
Não basta que a Alemanha receba navios com gás natural liquefeito (GNL) de outras latitudes, pois precisa construir as instalações para processá-lo, algo que pode levar de três a cinco anos, segundo cálculos do governo.
Apesar das dificuldades logísticas e dada a urgência das circunstâncias, Habeck disse: “Temos que tentar o impraticável”. E o país colocou o pé no acelerador com a aprovação de recursos para a criação de terminais flutuantes de GNL, que têm capacidade para receber o produto de lugares tão distantes como os Estados Unidos ou o Catar.
É assim que o Catar entra na mesa de negociações em boa posição após o início da guerra, justamente em um momento em que já havia feito investimentos significativos para aumentar a produção de gás e a infraestrutura.
“Certamente há uma oportunidade para o Catar”, diz à BBC Mundo Karen Young, pesquisadora sênior e diretora do Programa de Economia e Energia do think tank Middle East Institute, em Washington, nos EUA.
O GNL pode ser exportado em navios
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Planos de expansão
O Catar tinha planos de expandir a capacidade de exportação em cerca de 64% até 2027 antes do início da guerra, então a oportunidade de médio prazo para fornecer GNL para a Europa “será uma benção, tanto economicamente, se os negócios forem fixados a preços atuais, quanto politicamente”, diz Young.
Sendo uma monarquia semi constitucional com o emir como chefe de Estado e o primeiro-ministro como chefe de governo, o Catar não precisa passar por processos complexos de tomada de decisões ou obter apoio político de diferentes partidos.
O sistema político do país tem sido considerado por organizações ocidentais como um “regime autoritário”, uma descrição que o governo do Catar rejeita.
A Anistia Internacional denunciou práticas que considera “exploração e abuso” de trabalhadores migrantes.
Homem árabe com rouba branca e turbante está agachado e observa chaminés de onde saem chamas
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As ambições do Catar
Refrigerado, o GNL tem a vantagem de que é mais fácil de transportar. Ele pode ser carregado em navios e não requer a construção de grandes gasodutos com investimentos de milhões de dólares a longo prazo.
O plano do Catar para aumentar suas exportações de GNL em 64% até 2027 foi anunciado em 2019.
Sob esse plano, a empresa estatal Qatargas fechou um acordo para expandir a exploração da reserva do Campo Norte, uma reserva gigante no mar que se estende até as águas iranianas e um dos maiores depósitos de gás natural do mundo.
A expansão permitiria ao país aumentar sua capacidade de produção de GNL de 77 milhões para 110 milhões de toneladas até 2025.
Vários países vizinhos da Alemanha estão conversando com o Catar para garantir importações adicionais de GNL.
A urgência de obter novas fontes de energia tornou-se mais aguda nas últimas semanas, depois que a Rússia cortou o fornecimento para a Polônia e a Bulgária em meio à ofensiva de guerra.
Um país rico cada vez mais rico
Com mais riqueza per capita do que a Suíça ou os Estados Unidos, o Catar parece estar no caminho para se tornar ainda mais rico.
Isso porque a demanda também está crescendo em outras partes do planeta.
Atualmente, quase 80% das exportações de GNL do Catar vão para a Ásia, sendo Coreia do Sul, Índia, China e Japão os principais compradores.
E em volume de mercado, a China se tornou o maior importador de GNL do mundo após assinar um acordo com o Catar por um período de 15 anos.
Com a crescente demanda dos mercados asiático e europeu, especialistas afirmam que o Catar tem todas as condições para conquistar contratos rentáveis.
Embora nem tudo vá dar resultados imediatos, a gigante estatal Qatar Energy está funcionando a todo vapor.
A atual capacidade está comprometida sob contratos plurianuais que Doha diz que não cancelará para desviar suprimentos para a Europa.
Ainda assim, algumas empresas, como Morgan Stanley, esperam que a decisão da Europa de importar gás de outras nações impulsione um aumento de 60% no consumo global de GNL até 2030.
Enquanto esse cenário continuar tomando forma, a economia do Catar crescerá mais de 4% este ano, segundo o Citigroup – o maior crescimento desde 2015.

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