O que foi a Revolução dos Cravos de 1974?

Na madrugada de 25 de abril de 1974, a Rádio Renascença tocou a música Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso. Era o sinal esperado pelos “Capitães de Abril” para dar início a um levante armado contra o salazarismo. O regime ditatorial de António Oliveira Salazar havia governado Portugal por mais de 40 anos. Além de iniciar a redemocratização do país, a Revolução dos Cravos de 1974 possibilitou a independência das colônias lusitanas.

Embalada por canções que marcaram este acontecimento, a Politize! explica o que foi a Revolução dos Cravos de 1974. Você também conhecerá os antecedentes da revolução e os atores envolvidos naquele episódio, um dos mais importantes do século XX.

Os antecedentes da Revolução dos Cravos: 40 anos de Salazarismo

Em Portugal, as primeiras três décadas do século XX foram de instabilidade. Para restabelecer a ordem no país, uma ditadura foi instituída por Oscar Carmona, em 1926. Embora tenha garantido a ordem, o ditador não impediu que o país vivenciasse uma grave crise fiscal nos anos 1920.

Em 1928, o professor de economia, António de Oliveira Salazar, foi convidado para assumir o Ministério das Finanças. Sua política de austeridade fiscal, congelamento de salários e corte de gastos surtiu efeitos positivos. O capital político acumulado durante sua gestão fez de Salazar o nome forte do governo. Em 1932, ele já havia se tornado Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, cargo que corresponde ao de Primeiro-Ministro.

A ascensão do economista foi apoiada pelos setores conservadores, estes interessados na ordem e no progresso de Portugal. Igreja Católica, empresariado, oficiais de alta patente, monarquistas etc. formavam parte de suas bases sociais. Estes setores não manifestaram contrariedade diante das medidas autoritárias que Salazar implementou na década de 1930. Ao contrário! Num mundo temeroso diante da União Soviética, Salazar era o homem certo para manter o país imune às ameaças externas.

Nesse sentido, a Constituição, aprovada em 1933 pelo seu governo, foi celebrada pelos setores conservadores. Além de concentrar poderes nas mãos do governante, ela tinha um forte componente autoritário, pois permitia a censura sobre meios de comunicação. O unipartidarismo permitia somente a existência do partido do governo, a União Nacional. Lideranças de oposição, sindicalistas, intelectuais e artistas críticos ao regime se tornaram alvos de perseguição.

A Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) foi responsável pelo encarceramento e tortura de pessoas. As detensões ocorriam tanto em Portugal como em campos de concentação nas colônias. A PIDE era temida devido às suas práticas de tortura e à rede de delatores espalhados pela sociedade.

O Salazarismo foi um regime totalitário?

Em inúmeros aspectos, o Salazarismo se assemelhava aos governos totalitários do Entre Guerras, para além do seu antiliberalismo e anticomunismo. A ideia de que o Estado deve estar acima dos indivíduos também esteve presente em Portugal. “Estado forte” e “Tudo pela Nação, nada contra a Nação” eram lemas do governo que ilustram a proximidade com a ideia de estado totalitário.

Assim como Mussolini instituiu a Carta del Lavoro de 1927, Salazar aprovou o Estatuto do Trabalhador Nacional em 1933. Por meio dele, os trabalhadores foram agraciados com direitos trabalhistas, mas ficaram submetidos à tutela estatal. Sindicatos eram proibidos e qualquer manifestação crítica ao governo podia ser punida com prisão.

O regime salazarista era inspirado no Fascismo italiano, mas não pode ser considerado um experimento totalitário. Imagem: Wikipedia.

Assim como Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália, Salazar era promovido perante a população por meio de propagandas de culto ao líder. Enquanto o nazismo exaltava as origens germânicas do povo alemão e o fascismo se apresentava como uma “nova Roma”, Salazar enaltecia as glórias portuguesas cantadas por Camões. O nacionalismo era difundido por meio da rememoração dos tempos áureos das Grandes Navegações. Foi neste espírito nacionalista e nostálgico que foi realizada a Exposição do Mundo Português, em 1940. No mesmo ano foi inaugurado o Monumento aos Descobrimentos, em Lisboa.

O Monumento aos Descobrimenros foi construído em 1940 para a Exposição do Mundo Português com materiais perecíveis. Nos anos 1960, foi erigido o atual monumento em betão e pedra. Imagem: Bruno Félix Segatto.

Apesar destes aspectos em comum, o Salazarismo não foi um regime totalitário. A Alemanha nazista e a Itália fascista procuravam manter a sociedade em estado de mobilização permanente. Desfiles, marchas, paradas, treinamentos etc. faziam parte do cotidiano naqueles regimes. Em Portugal e na Espanha, ao contrário, os governos procuraram desmobilizar e despolitizar as massas. Além do seu aspecto desmobilizador, o Salazarismo tinha outra característica que o distanciava dos regimes em que se inspirava: seu conservadorismo.

“Deus, Pátria e Família”: a particularidade do Salazarismo

Assim como o Franquismo espanhol (1939-1975), o regime de Salazar possuía um forte apego ao tradicionalismo, ao cristianismo e ao ruralismo. “Deus, Pátria e Família” era outro lema que reforçava este apego às tradições. As propagandas do regime exaltavam a religiosidade do povo português, bem como a imagem da Nossa Senhora de Fátima. Foi durante o regime salazarista que a padroeira de Portugal foi agraciada com um grande santuário na cidade que leva seu nome.

Outra característica enaltecida pelo regime era o caráter rural do povo lusitano. O habitante do campo, que correspondia à maioria da população, era visto como modelo de cidadão. As cidades, por outro lado, eram vistas com desconfiança, pois era onde as influências externas se manifestavam.

As particularidades do Salazarismo e do Franquismo possibilitaram que ambos os regimes sobrevivessem após a Segunda Guerra. Portugal e Espanha se mantiveram neutros durante o conflito, embora fossem notadamente inspirados nos regimes nazifascistas. Ainda que ditadores, Salazar e Franco eram preferíveis aos olhos do Ocidente em meio à bipolaridade da Guerra Fria.

“Renovação na continuidade” e “Orgulhosamente sós”: auge e declínio do Salazarismo

As décadas de 1950 e 1960 marcaram o auge do regime. O alinhamento com o Ocidente durante a Guerra Fria garantiu o reconhecimento internacional e a facilidade de acesso a créditos. Nesse cenário de bonança e recuperação pós-guerra, Portugal se tornou um grande canteiro de obras. Represas, rodovias, pontes etc. foram construídos pelo país, diminuindo o desemprego.

Construída durante a década de 1960, a ponte foi inaugurada com o nome de “Ponte Salazar”. O nome foi substituído após a Revolução dos Cravos de 1974. Imagem: Pexels.

A expansão dos setores industrial e comercial resultou em uma considerável urbanização. Como resultado, houve um incremento das camadas médias urbanas. Influenciados pelos padrões de consumo ocidentais, estes novos grupos sociais passaram a reivindicar reformas políticas e uma maior representatividade.

O regime, no entanto, respondia a estas demandas com mais repressão e censura. O lema “Renovação na continuidade” evidencia o quão resistente às mudanças era o regime de Salazar. Críticos como o general Humberto Delgado e o bispo do Porto foram forçados a deixar o país. Outros milhares de jovens portugueses optaram por procurar oportunidades de trabalho no exterior.

As críticas à ditadura ganharam força na década de 1960, principalmente após os protestos estudantis de maio de 1968, na França. Também na década de 1960, um outro aspecto do Salazarismo passou a ser condenado pela comunidade internacional: seu colonialismo irredutível.

De todas as antigas potências coloniais, Portugal era a única que resistia a aceitar as demandas emancipacionistas de suas colônias. Mesmo com a ONU defendendo o Princípio de Autodeterminação dos Povos, os luso africanos estavam submetidos ao Ministro das Colônias, nomeado em Lisboa. O governo metropolitano refutava negociar as independências devido à dependência econômica que tinha em relação às suas posses ultramarinas. Portugal se sentia “orgulhosamente só” na sua política colonial.

Diante desta postura, movimentos nacionalistas africanos iniciaram guerras de guerrilha contra as tropas portuguesas sediadas em seus territórios. Os conflitos se arrastaram por anos e custaram cifras imensas aos cofres portugueses. O envolvimento em um conflito condenado pela comunidade internacional minou o prestígio dos militares. As Forças Armadas, aliás, tiveram perdas humanas expressivas no conflito, principalmente na Guiné.

Em 1968, o afastamento de Salazar por motivos de saúde deu esperança aos portugueses. Seu substituto, Marcelo Caetano, prometeu reformas, mas a “Primavera Marcelista” acabou frustrando os lusitanos. O golpe final no regime veio com os efeitos da crise do petróleo de 1973, que atingiu a economia do país. A ditadura já não tinha sustentação em muitos setores da sociedade, mas alguém precisava derrubá-lo. Foram os militares, sobretudo capitães, os principais articuladores da Revolução dos Cravos de 1974.

Democracia e descolonização: a Revolução dos Cravos de 1974

A insatisfação com décadas de autoritarismo, censura, repressão, guerras coloniais e crise econômica criou um ambiente favorável à mobilização de críticos ao regime. Inúmeras tentativas de derrubar o governo haviam ocorrido nas décadas de ditadura, mas todas sem êxito.

Nos anos 1970, o governo precisava de mais capitães para fazer frente às guerras coloniais. Assim, a ditadura recrutou jovens que tivessem feito uma comissão no ultramar e os submeteu a cursos de formação intensiva. Ao verem jovens ingressando já como capitães nos quadros das Forças Armadas, os capitães de formação tradicional se revoltaram. Esta indignação passou a ser externalizada por meio de memorandos com abaixo-assinados destinados à cúpula das Forças Armadas.

Em março de 1974, uma tentativa de golpe de Estado foi desarticulada. Ao ter seu nome associado ao episódio, Vasco Lourenço foi mandado para os Açores. Ele foi um dos principais articuladores do Movimento das Forças Armadas. No mesmo mês, o grupo aprovou o manifesto Os Militares, as Forças Armadas e a Nação. A resposta do governo veio com a demissão dos generais Francisco da Costa Gomes e António de Spínola. Diante daquele ato, parte dos militares já estava inclinada para a ação.

Militares na Rua do Ouro, em Lisboa

O levante deveria acontecer na passagem do dia 24 para 25 de abril, durante a madrugada. Porém, diante da espionagem realizada pela PIDE, era preciso criar um código de comunicação entre os revoltosos. Os códigos foram duas músicas escolhidas pelos líderes do movimento.

Às 22:55 do dia 24 de abril, a canção E depois do adeus, de Paulo de Carvalho, deu o primeiro alerta. Às 00:20 do dia 25, veio o segundo sinal. A música censurada Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, foi transmitida na Rádio Renascença. A partir de então, os militares rebeldes tomaram quarteis e pontos estratégicos do país. Isolado e sem apoios, Marcelo Caetano aceitou entregar-se ao general Spínola. O levante foi pacífico, mas quatro pessoas morreram atingidas por disparos de policiais nas imediações da PIDE, em Lisboa.

Caetano buscou exílio no Brasil, onde morreu em 1980. Os “Capitães de Abril” formaram uma Junta de Salvação Nacional. Com o lema “democratizar, descolonizar e desenvolver”, o movimento tinha como líderes Vasco Lourenço, Otelo de Carvalho, Salgueiro Maia, Francisco Costa Gomes e António Spínola. A Revolução dos Cravos atingia seu objetivo.

Militares com cravos nos fuzis

A população de Lisboa acordou naquele dia com militares armados nas ruas: a ditadura havia terminado. Os cidadãos que saíram para aclamar as tropas entregaram ramos de cravos aos soldados. Por causa deste gesto simbólico, o levante ficou conhecido como Revolução dos Cravos. Dias depois, no 1º de Maio, milhares de portugueses saíram para as ruas celebrar a democracia com cravos nas mãos.

Imagem: Wikipedia.

O novo governo derrubou as normas autoritárias da ditadura e restituiu liberdades aos cidadãos. A Junta também deu início às negociações com lideranças africanas para encaminhar as independências. A de Guiné Bissau ocorreu no mesmo ano de 1974. Moçambique, Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe se tornaram independentes no ano seguinte. Lidar com as colônias não foi tão difícil quanto lidar com as divisões que surgiram entre os próprios militares portugueses.

Democracia e liberalismo: o Portugal pós-Revolução dos Cravos

Unidos para derrubar o Salazarismo, o movimento se dividiu após o êxito da Revolução dos Cravos de 1974. De um lado, estavam os militares de esquerda, que defendiam transformações mais profundas em Portugal. Eles propunham reforma agrária e nacionalização de indústrias e meios de comunicação. Do outro lado, estavam militares moderados, que preferiam mudanças graduais e dentro de uma economia de livre mercado. As divergências entre ambos os grupos quase desencadeou uma guerra civil durante o “verão quente de 1975”.

Devido a certa influência dos Estados Unidos e de países da Europa ocidental, os militares radicais perderam força nos anos seguintes. Um marco neste processo de redemocratização foi a Constituição de 1976, que instituiu uma democracia liberal no país. O processo culminou com a eleição de António Ramalho Eanes. Ele conseguiu promover uma estabilidade política e impor uma política econômica liberal de austeridade. Esta Constituição incorporou inúmeros elementos de Estado de bem-estar social. Posteriormente, ela serviu de inspiração para a Constituição brasileira de 1988.

Para muitos, a Revolução dos Cravos de 1974 perdeu seu ímpeto revolucionário e transformador. O cantor brasileiro Chico Buarque, por exemplo, afirmou na canção Tanto Mar, de 1978, que a revolução havia sido murchada:

“Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente.

Ainda guardo renitente um velho cravo para mim.

Já murcharam tua festa, pá.

Mas certamente esqueceram uma semente em algum canto de jardim”.

Atualmente, porém, a Revolução dos Cravos recupera sua relevância na medida em que partidos de extrema direita crescem em Portugal. Os festejos do 25 de abril, em 2024, levaram milhares de portugueses às ruas do país. Mas não foi somente para celebrar o fato histórico. A comemoração ganhou relevância devido ao Chega, partido de extrema direita que se tornou a terceira força no Parlamento.

E aí, leitor(a), você já tinha ouvido falar da Revolução dos Cravos? Você percebeu que o Estado Novo salazarista serviu de inspiração para o Estado Novo varguista no Brasil? Deixe seus comentários!

Referências:

BIRMINGHAM, David. História concisa de Portugal. São Paulo: Edipro, 2015.

OLIVEIRA MARQUES, Antonio Henrique Rodrigo. Breve história de Portugal. Lisboa: Presença, 2006.

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cd18z5r0zddo

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