Onça-pintada é flagrada no Sul do RJ após décadas; registro surpreende pesquisadores

Animal foi filmado por armadilhas fotográficas em um trilha na Serra da Concórdia em Valença (RJ). Felino considerado ameaçado na Mata Atlântica não era registrado há décadas. (VÍDEO)
Um registro importante e raríssimo feito na Serra da Concórdia foi divulgado recentemente: uma onça-pintada foi flagrada caminhando pelo Santuário da Vida Silvestre, em Valença, no estado do Rio de Janeiro. A imagem foi captada em julho desde ano e surpreendeu muita gente, afinal não é fácil encontrar esse felino na Mata Atlântica, devido ao status de ameaça do animal nesse domínio natural.
“É muito difícil afirmar com certeza há quanto tempo não aparecia uma onça-pintada no Sul do Rio de Janeiro, mas até onde eu saiba na região do Parque do Itatiaia, que é próxima ao local que essa onça foi flagrada, há décadas que a gente não tem relatos da espécie”, afirma Fernando Cascelli de Azevedo, professor da Universidade Federal de São João del Rei, associado do Pró-Carnívoros e coordenador do Projeto Carnívoros do Rio Doce (MG).
Tudo começou com algumas pistas encontradas nas trilhas do local que possui cerca de 90 alqueires, considerado como um dos fragmentos de Mata Atlântica mais preservados do Sul do estado.
“Decidimos arrendar a área de fazenda dessa reserva legal através de uma startup de sustentabilidade, turismo e esporte com o intuito de preservar a mata, reativar o cafezal, voltar com o reflorestamento escolar e com outras atividades como o camping. Nisso, visitando o local várias vezes e abrindo trilhas, começamos a ver carcaças de tatus e fezes que pareciam de felinos, mas desconfiamos que seria de jaguatiricas ou até mesmo de onças-pardas”, conta David Barbosa Nogueira, conservacionista, advogado e responsável pela empresa que administra a área.
A esquerda supostamente o registro de fezes da onça-pintada com pelos de cateto e a direita uma carcaça de tatu.
Divulgação Mundo Woods
Ainda segundo ele, armadilhas fotográficas foram instaladas no final de julho para tentar desvendar o mistério e 15 dia depois a surpresa veio à tona quando foram verificar as imagens: “Na hora que fomos checar e vimos que era uma onça-pintada foi algo surreal , ficamos muito emocionados. Eu e meu sócio nos sentimos abençoados e privilegiados de estar dividindo, mesmo sem saber, uma área com um felino tão raro e ameaçado aqui no bioma”.
A onça flagrada no dia 27 de julho aparece por apenas alguns segundos na filmagem se movimentando durante a noite. Não é possível afirmar o sexo do animal e estima-se que tenha cerca de 70 quilos.
Depois do flagrante, um biólogo foi contratado para a auxiliar na situação da onça e organizar a divulgação das imagens. “Nossa maior preocupação agora é saber como esse animal está. Vamos começar mais estudos e monitoramentos para tentar descobrir como ela chegou ali e se o ambiente tem o que precisa para sustentar o felino. Já estamos em contato com o pessoal do Pró-Carnívoros e buscando contatar o ICMBio e parcerias para seguir o Plano Nacional de Ação da Onça-Pintada e realizar todos os protocolos necessários para evitar qualquer tipo de conflito com o animal”, diz o biólogo Vitor Ferreira, que acrescenta que o planejamento inicial foca na educação ambiental.
A onça-pintada foi flagrada por volta das oito horas da noite.
Divulgação Mundo Woods
A onça-pintada é um animal solitário que normalmente ocorre em baixíssimas densidades. Precisa de um território muito grande de floresta para sobreviver, por isso nesse flagrante acredito que a onça está apenas transitando por esse local que não é extenso o suficiente para a permanência dela
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Importância do registro
A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas, ficando atrás apenas do tigre e do leão a nível mundial. No Brasil pode ser encontrada em diversos biomas, mas as populações estão diminuindo de maneira preocupante e a espécie praticamente desapareceu da maior parte das regiões nordeste, sudeste e sul.
“No Brasil a estimativa mais recente, que é de 2018, é que existam hoje de 86 a 87 mil onças-pintadas espalhadas pelo território, porém na Mata Atlântica esse número cai para em torno de 300 a 350. O registro dessa onça de Valença, no Rio de Janeiro, é portanto, raríssimo e importantíssimo”, explica Azevedo.
O especialista em onças esclarece que registros como esse de um animal aparecendo onde não havia relatos há muito tempo indicam que a espécie está transitando e reocupando áreas que sobraram da Mata Atlântica, expandindo a ocorrência. Mas ele chama a atenção para o fato de que mais pessoas estão utilizando equipamentos fotográficos hoje em dia, o que aumenta as chances de flagrantes de animais que possivelmente estão ali há muito tempo, só nunca antes foram vistos.
Onça-pintada fotografada no Pantanal
Valter Patrial/Divulgação
De qualquer maneira o registro traz uma oportunidade única e aumenta um leque enorme para estudos e pesquisas de conservação da espécie. “Em termos de conservacionismo a partir de hoje a área necessita de um cuidado maior em termos de levantamento de fauna e proteção tanto do capão de mato onde foi exposto o registro quanto da região do entorno para descobrir eventualmente se tem mais onça, de onde veio essa onça, para onde ela está indo… vale a pena investigar”, finaliza.

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