Rio, um ser vivo esquecido

Na data em que celebramos o “Dia do Rio”, a coluna “Histórias Naturais” traz uma reflexão sobre esses cursos d’água têm sofrido com a ação humana. Vista do Rio Juquiá.
Sérgio Oliveira/TG
O dia 24 de novembro celebra o Dia do Rio! Mas será que rio pode ser considerado um ser vivo? A coluna “Histórias Naturais” dessa semana traz à tona uma reflexão sobre esse questionamento para pensarmos sobre como a ação do homem reflete diretamente na vida do rio.
Vida é uma palavra simples para algo único e complexo. Até mesmo os biólogos, os estudiosos da vida (do grego “bio” = vida, “logos” = estudo), não parecem ter ainda consenso sobre uma definição precisa do que é a vida. Apesar disso, todos nós, quase que instintivamente, somos capazes de reconhecer se algo é vivo ou não.
De acordo com o dicionário, vida é uma “propriedade que caracteriza os organismos cuja existência evolui do nascimento até a morte”. Desse entendimento surge o que muitas pessoas chamam de ciclo da vida: “nascer, crescer, se reproduzir e morrer”. Animais, plantas, fungos e diferentes tipos de micro-organismos atendem essa definição, mas um outro tipo de “ser” também se enquadra bem no ciclo da vida: os rios.
Rios nascem. Não por acaso chamamos de nascente os lugares em que a terra dá à luz a um rio. Além disso, conforme vão seguindo seu curso os rios vão aumentando de tamanho e volume, ou seja, eles também crescem. Diferentes rios podem se juntar para formar outro rio, que por sua vez pode se juntar com outro rio e formar uma outra “geração” e por ai vai. Ou seja, os rios não apenas se reproduzem, mas eles também podem formar uma sequência hereditária. Finalmente, quando chegam ao final do seu ciclo, os rios também morrem, geralmente no mar.
Trecho de rio com água cristalina se destaca em meio à floresta
Carlos Alberto Coutinho/ TG
Essa constatação de que o rio se comporta como um ser vivo não é inédita. Diversos povos originários consideram os rios não apenas seres vivos, mas um misto de divindade com lugar sagrado, que possui papel central em muitas culturas. Entre os Caiapós, por exemplo, existe o mito de que um pajé que teve seu corpo queimado pulou em um rio para aliviar as dores e lá conviveu com os peixes que ensinaram muitas coisas importantes, incluindo danças, cantos e o ato de nomear as coisas.
Falando em nomear, outra característica notável que os rios têm em comum com animais, plantas e outros seres vivos é que nós batizamos os rios. Muitos dos seus nomes revelam característica ou até traços de “personalidade”, ou, nesse caso, seria “fluvionalidade”? Rio Manso, rio Bravo, rio Bonito, rio Grande, rio Paranapanema (do tupi, “rio ruim”, uma referência a dificuldade de navaga-lo), e tantos outros.
Encontro dos rios Paraná e Paranapanema.
Divulgação
Em suas águas muitos rios carregam memórias, histórias e conhecimentos ancestrais. Diversos rios brasileiros até hoje são conhecidos por seu nomes em diferentes línguas indígenas. Tietê, Paraná, Araguaia, Paraguai, Parnaíba, Tocantins, Paraíba do Sul… A lista é muito extensa. Mas, assim como aconteceu com a fauna e a flora, os europeus, quando aqui chegaram, atribuíram novos nomes a muitos rios.
Para conquistar é preciso nomear. E juntos com os nomes “originais” dos rios perdemos também um pouco da nossa memória ancestral. O famoso rio São Francisco, por exemplo, era conhecido como Opará, que significa “rio mar”. As mudanças de nomes podem ser constatadas já no mais antigo mapa conhecido que ilustra o que viria ser o território brasileiro, o Planisfério de Cantino, datado de 1502.
No mesmo mapa, além do São Francisco, também está nomeado o “Rio de Brasil” na região sul da Bahia, que inclusive já visitamos em uma expedição do Terra da Gente. Esses foram os dois primeiros rios renomeados pelos europeus na então recém descoberta Terra de Vera Cruz, nomes escolhidos durante uma expedição de reconhecimento em 1501, comandada por Gonçalo Coelho e da qual participou também o famoso Américo Vespúcio.
Rio São Francisco
Reprodução
As similaridades entre rios e seres vivos não param por aí. Assim, como um passarinho na gaiola, um rio também pode ser aprisionado. Embora vendida como uma energia “limpa e sustentável” as grandes represas hidrelétricas aprisionam as águas dos rios causando danos irreversíveis a eles e a tudo e todos que dele dependem.
Finalmente, rio também morre. Há não muito tempo rio só morria de velhice, no mar. Mas nos últimos séculos nós temos inventados muitas formas novas de matar os rios. As hidrelétricas, que matam o rio por fraqueza, poluição, assoreamento, drenagem e seca são apenas algumas das formas como assassinamos rios. Um estudo recente produzido ela Agência Nacional de Águas chegou à conclusão de que o Brasil possui atualmente mais de 83 mil km de rios poluídos, valor equivalente a duas voltas completas no planeta Terra.
Vista aérea do Rio Tietê, na altura do bairro da Penha, zona leste de São Paulo (SP).
PAULO LOPES/BW PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Assim, como qualquer outra coisa morta, um rio morto exala um cheiro podre. Mas o fedor de um rio assassinado por poluição diz muito mais sobre nós do que sobre o rio em si. Certa vez, parado no trânsito de São Paulo em um engarrafamento, às margens do rio Tietê, o mais poluído do Brasil, li pichada em um velho muro uma frase, algo como um epitáfio, que mudou para sempre minha percepção sobre os rios. “O rio não fede, quem fede somos nós”.
Hoje, 24 de novembro, é comemorado o Dia do Rio. Assim como essa frase às margens de um rio morto, que essa data sirva para refletirmos e ressignificarmos nossa relação ingrata com esses seres vivos esquecidos e lembrarmos que rio só deveria morrer no mar.
*Luciano Lima é biólogo e faz parte da equipe do Terra da Gente

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